25 de janeiro de 2012
Sem platéia
Assim como o cantor sem platéia,
não há motivos para canção sem multidão,
nem para voz sem poesia.
Se não há com quem rimar a própria rima
rumo para o alto de meu morro:
meu orgulho, o meu ego lá de cima,
que abana o rabo qual um cachorro
ao primeiro ensaio de carinho.
Cá estou eu, cercado de tudo,
porém sozinho,
sem saber se o beijo era corpo,
alma ou se era vinho,
se sou rei, mendigo ou impostor,
se me confundo ou se arrumo confusão,
pois o tempo parado me diz coisas,
mas não conta nada ao meu incauto coração.
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7 de janeiro de 2012
A soma do que me cerca.
Se sou a colcha de retalhos deste mundo
tijolo de cada casa, cada muro
sigo além do acostamento desta estrada,
morada de minha paz, um quarto escuro.
O peito que balança embalado
a mão que, ao teu lado, sua e dança,
o beijo desejado e a distância,
o gosto da tua boca, o céu melado.
Mas longe, tudo é roda de criança,
cantiga de quem vai e de quem vem,
ciranda faz presente, minha infância,
o cheiro de quem ama e vai além.
Se levo minha cabeça ao travesseiro,
esqueço o pensamento em tua cama,
no carinho e na saudade que me chama,
calados no suspiro que é matreiro.
O abraço que me vem no fim de ano,
esperado e desejado o ano inteiro,
o meu corpo treme, teima e ainda clama,
que minha pele seja a tua em Janeiro.
Há muito mais de ti do que de mim, em mim.
Eu quero muito mais do que me dá, você.
Queria ser mais eu do me deixa, tu.
Era pra ser você aqui mais perto d'eu.
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6 de janeiro de 2012
Série Síntese: do Amor Reencontrado (ou Nós).
Nós.
Tu e eu.
Nús.
Olhos nos olhos.
Sorrisos.
O abraço.
O cheiro do corpo.
Do cabelo.
As mãos e as costas.
Outros olhos e cheiros.
O beijo.
Longo.
O toque no rosto.
Os olhos na boca.
O frio na espinha.
A garganta seca.
Outro beijo.
O queixo. As bochechas. Os olhos. A testas.
O abraço com cheiro. O pescoço. O ombro. A nuca. O cabelo.
As mãos passeiam, os olhos se fecham, as línguas namoram, os dentes beliscam, as peles transpiram, suspiros, mais olhos e dentes, mais cheiros e mãos, mais costas e pêlos, mais peles e pernas, mais braços e umbigos e cabelo e sorrisos e beijos e beijos e beijos e flores e confortos e sede e fome e dança bolero margaridas passeios viagens saltos balanço gangorra risadas desejos carinhos lembraças andanças saudades foguetes festas poemas música fotos frases feitos seios perfume colo suor conchinha sereia peixinhos chuva janela e...
Paz.
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30 de novembro de 2011
Nada explica.
(e qual é o problema nisto)
O que é que a gente tem
que é sentimento desmedido?
Que é tão pouco explicável e
muito menos, compreendido?
O que nos faz sentir saudades
mesmo quando nos unimos?
Que é maior que vaidade e
que nos beira o desatino?
O que é que faz a gente
lembrar e esquecer?
Que nos une desde a alma
em um Ser, sem querer Ter?
Que nos faz olhar nos olhos e
a mente, quase ler?
Que nos faz queimar a cama e
a chama, absorver?
O quê?
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12 de novembro de 2011
Cai a máscara.
(anônimo: o homem foge de si quando fala de si mesmo)
(dê-lhe uma máscara, e ele te dirá a verdade)
(oscar wilde)
Cai a máscara.
Cai a máscara pra mim.
A quem tentei enganar?
Tanto sorriso e amor
Tentando encobrir
A lágrima de dor
Que ainda mói e remói
Num peito quase oco.
Serei mesmo, eu, louco
Por tentar chorar de amor?
Cai a máscara
e essa máscara não é de ninguém.
Me abrir e ser bem mais que sou.
Ser teu, do avesso, de tão aberto
Pra calar no ouvido que a minha dor
É a dor do manipulador,
Aquele que ri da própria desgraça e
Desgraça tudo aquilo que é bonito.
Cai a máscara deste Midas invertido,
Mas ele não se dá por vencido.
Ele é amargo, ele é arisco e
arrisco até dizer-lhe bandido,
Pois no teu olho ele diz que mente
E você acredita piamente,
Ou quem mente é você.
Cai a máscara
E é a cara do medo que vejo.
Aquele que doa tudo aquilo que almejo
Do verbo querer ao verbo amar,
Conjuga em todos os tempos,
Mas tem medo mesmo, é do verbo trocar.
Patife. Miserável!
Que bandido é este que só sabe dar
E se treme todo se vai receber?
Aquilo que tanto deseja
Tal aquela mão que afaga,
Um passo a frente de você
Dilapidando a tua cara,
Expõe tua covardia e flagra,
Nú, tu, tentando se esconder.
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19 de outubro de 2011
A terceira face do espelho
(um novo olhar sobre o mesmo plano)
Em outro encontro com o espelho alterado,
uma nova pessoa de um outro passado,
reflete a miragem que paira no centro:
imagem do peito, de fora p'ra dentro.
Eu-mesmo Mulher, com olhos dóceis
em outra versão de mim, menino,
no corpo da Deusa, o feminino,
Shaktí em delicado estado bruto.
Ao seu primeiro argumento, refuto,
pois esta sou eu longe de mim
em charme inegável e afim,
sou eu contra Eu quando luto.
Espelho tão perto e distante,
a cópia que meu ego disfarça,
desvio e desejo tua graça
te quero de ontem em diante.
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1 de setembro de 2011
Série Síntese: do Amor (de) Novo
(ao reencontro)
Olhos nos olhos.
Coração acelerado.
Sorrisos indisfarçáveis.
Rostos ficando vermelhos.
Um cumprimento desinteressado (ainda tentando disfarçar) - neste ponto os olhos ainda estão grudados, mas logo vão desviar - então chego perto para te cumprimentar pessoalmente.
Me inclino para beijar o teu rosto e eu demoro - só o suficiente para sentir o teu perfume bem de perto.
Beijo cada uma das maças do teu rosto, ainda sentindo o teu cheiro.
Não dou o terceiro beijo (praxe entre os cariocas). Ele seria na tua testa para simbolizar todo o respeito que tenho por ti.
Fico por perto tentando encontrar uma desculpa para pegar na tua mão - tão macia... quis que você tocasse o meu rosto com as duas mãos...
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